Sem dúvida, perder alguém importante é uma das experiências mais difíceis da vida. A tristeza, a saudade e até a raiva fazem parte do luto, que é uma resposta natural à perda. Na maioria das vezes, a dor diminui aos poucos e a pessoa consegue retomar a vida, mesmo sentindo falta de quem partiu. Em alguns casos, porém, o sofrimento permanece intenso por muito tempo e paralisa a rotina. Esse quadro tem nome: luto prolongado.
Como É o Luto Considerado Esperado
Antes de tudo, não existe um jeito certo de viver o luto, nem um prazo fixo para ele acabar. Afinal, cada pessoa sente a perda de um modo. Isso depende da sua história, da sua cultura e do vínculo com quem morreu.
Na prática, o luto vem em ondas. Há dias mais leves e outros mais pesados, especialmente em datas especiais. Com o tempo, porém, a dor costuma dar espaço para lembranças carinhosas e para a reorganização da vida.
O Que É o Luto Prolongado
O luto prolongado acontece quando a dor da perda continua muito intensa por muito tempo. Assim, ela impede a pessoa de seguir com a vida. Por isso, a Classificação Internacional de Doenças da OMS (CID-11) e o manual da Associação Americana de Psiquiatria passaram a reconhecer o quadro como um transtorno.
Segundo uma revisão de estudos publicada em 2017, cerca de 10% das pessoas enlutadas desenvolvem luto prolongado. Ou seja, não se trata de exagero ou de falta de força, e sim de uma condição que merece cuidado.
Sinais de Luto Prolongado
Alguns sinais, quando persistem por muitos meses, podem indicar luto prolongado:
– Saudade intensa e constante, que ocupa a maior parte dos pensamentos;
– Dificuldade de aceitar a morte, como se ela não fosse real;
– Sensação de que uma parte de si morreu junto;
– Evitar tudo o que lembra a perda ou, ao contrário, não conseguir pensar em outra coisa;
– Dor emocional profunda, raiva ou culpa intensa;
– Dificuldade de retomar o trabalho, as amizades e os planos;
– Sensação de que a vida perdeu o sentido.
Quem Tem Mais Risco de Luto Prolongado
Além disso, algumas situações aumentam a chance de o luto se tornar prolongado:
– Mortes repentinas, violentas ou traumáticas;
– Perda de um filho ou de um parceiro de vida;
– Pouca rede de apoio após a perda;
– Histórico de depressão, ansiedade ou outros transtornos;
– Relação de grande dependência com quem morreu.
Luto ou Depressão?
O luto prolongado e a depressão podem parecer semelhantes, mas não são iguais. No luto, a dor gira em torno da perda e da saudade. Na depressão, por outro lado, a tristeza tende a ser mais ampla e vem acompanhada de perda de interesse em quase tudo e de uma visão negativa de si mesmo. Além disso, muitas vezes os dois quadros aparecem juntos. Por isso, a avaliação profissional é importante. Saiba mais sobre os equívocos comuns sobre a depressão.
Como É o Tratamento do Luto Prolongado
Em geral, o tratamento envolve principalmente psicoterapia. Existem abordagens criadas justamente para ajudar a pessoa a lidar com a perda e a reconstruir a vida. Quando há depressão ou ansiedade associadas, o psiquiatra também pode indicar medicamentos. Veja como terapia e medicação podem se complementar.
Além disso, pequenos passos ajudam no dia a dia:
– Manter uma rotina mínima de sono, alimentação e atividades;
– Aceitar o apoio de amigos e familiares;
– Permitir-se falar sobre a pessoa e sobre a saudade;
– Buscar grupos de apoio ao luto.
A rotina, aliás, tem um papel importante na saúde mental. Confira como pequenas mudanças diárias ajudam.
Quando Procurar Avaliação
Procure um psiquiatra ou psicólogo se você:
– Sente que a dor não diminui com o passar dos meses;
– Não consegue retomar o trabalho, os cuidados com a casa ou os relacionamentos;
– Usa álcool ou outras substâncias para aliviar a dor;
– Tem pensamentos de que não vale a pena continuar vivendo.
Se você tiver pensamentos de tirar a própria vida, procure ajuda imediata. O CVV atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
Perguntas Frequentes
Existe um tempo certo para o luto acabar?
Não. O luto não tem prazo, e a saudade pode durar a vida toda. O sinal de alerta é quando a dor continua tão intensa que impede a pessoa de viver.
Buscar ajuda significa esquecer quem morreu?
Não. O tratamento ajuda a carregar a perda de um jeito mais leve, mantendo o vínculo e as lembranças de quem partiu.
Conclusão
O luto é uma resposta natural ao amor que sentimos por alguém. No entanto, quando a dor da perda não dá trégua por muito tempo, ela pode se tornar luto prolongado, uma condição que tem tratamento. Portanto, reconhecer os sinais e buscar apoio é uma forma de cuidar de si e de honrar a memória de quem partiu.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta, o diagnóstico, os exames ou o acompanhamento individualizado com um profissional de saúde.
Dra. Simone Radecki — Psiquiatra | CRM-PR 30291 | RQE 21928